segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O método (auto) biográfico de formação



Imagem: A Magia da Escrita



Resenhista: TENO, Neide Araújo Castilho.

DOMINICÉ, Pierre. O processo de formação e alguns dos seus componentes relacionais. In: NÓVOA, Antonio & FINGER, Mathias. O método (auto) biográfico e formação. São Paulo: Paulus, 2010. Cap. 03. p.81-95.

Sobre o Autor

Pierre Dominicé junto com Gaston Pineau e Marie-Christine Josso formam o trio que representam as pesquisas teóricas e práticas no campo da formação de adultos. Participou da fundação da Association Internationale des Histoires de Vie en Formation (ASIHVIF), e tem contribuído com as pesquisas autobiográficas com ênfase na utilização dos relatos como procedimento de formação. Tornou conhecido a partir dos trabalhos publicados na primeira coletânea denominada “O método (auto) biográfico e a formação”, organizada por António Nóvoa e Mathias Finger, em 1988. Dada a importância dessa obra e uma vez esgotada foi republicada em forma de Série Clássicos das histórias de vida e lançado no IV CIPA (Congresso Internacional de Pesquisa (auto) biográfica) em São Paulo em 2010. Trabalha na Universidade de Genebra /Suíça.

Sobre o artigo

O artigo “O processo de formação e alguns dos seus componentes relacionais” compõe o terceiro capitulo do livro organizado por NÓVOA & FINGER, O método (auto) biográfico e formação, publicado no IV CIPA em São Paulo em 2010 (Cap. 03 p.81-95).

O texto de Dominicé está estruturado sob 06 (seis) subitens: 1) Da avaliação pedagógica a abordagem biográfica: uma mesma interrogação sobre a formação. 2) Alguns pontos de referencia para uma melhor compreensão da orientação e do uso da narrativa biográfica. 3) O universo das relações familiares enquanto contexto de formação.4) Um processo de autonomização face a família. 5) A escola e a vida profissional: outro tempo relacional da história de vida. 6) Os registros de compreensão das dimensões relacionais do processo de formação.


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O artigo sintetiza um conjunto de conhecimento construído por meio do método biográfico. Inicia o artigo referenciando o seu próprio percurso que o conduziu a escrita do primeiro item. Neste item descreve a finalidade, a hipótese, o método que utilizou, e o grupo de estudo o qual tem parceria (GRAPA)*. A sua preocupação centra-se na avaliação e sua repercussão no processo de formação. A hipótese levantada pelo pesquisador foi: não há formação sem modificação, mesmo que muito parcial, de um sistema de referencia ou de um modo de funcionamento. Aponta o grupo de estudo como o à equipe de investigação que desenvolveu a idéia de que existem três maneiras de identificar os estudos na formação do adulto: formação, conhecimento e aprendizagem. A metodologia utilizada por Dominicé foi semelhante à proposta pelo nosso grupo. Propôs a formadores profissionais de adultos a elaboração oral, depois escrita, do relato de vida do percurso educativo, ou seja, a auto-interpretação do próprio trajeto de formação.

No segundo subitem descreve a quantidade dos textos disponíveis, escritos por estudantes no período de quatro anos em seminários denominados “historia de vida e formação”. Não explica as estratégias de elaboração dos textos mas deixa claro que foram textos redigidos com grande liberdade, algumas seguiram um plano pré-determinado, outras não, a preocupação era com o conteúdo das biografias narrativas de maneira que o material prestasse as analises e respondesse o objetivo da investigação. Dominicé que a intenção da recolha do material muitas vezes não contempla o objetivo proposto pois segundo ele “apesar de termos imaginado, desde o primeiro ano[...] a possibilidade de estabelecermos um mapa relacional,sabemos hoje que o sentido das relações evocadas deve compreender-se no “dado biográfico” considerado na sua globalidade”. Quem escreve uma biografia sempre faz uma reflexão e toma consciência da sua vida, o que vai originar material de investigação, cujo material já é o resultado de uma análise. Os dados devem ser percebidos como uma pluralidade de compreensão biográfica.

O terceiro subitem explica como aparecem as relações familiares nas escritas biográficas. As pessoas citadas geralmente são aquelas que exerceram influência no decurso da vida evidenciando assim um processo relacional de socialização. Sobressai no material analisado por Dominicé na formação de adultos traços da capacidade de formação, contrariedades sofridas, revoltas, casar sem aprovação dos pais, formação profissional exigida pelos pais antes de iniciar a carreira que escolheu,revelando um movimento de emancipação do adulto. A relação com a família não foi ponto determinante na pesquisa mas por que processo os adultos se formou entendida como uma construção progressiva que se manifesta nas histórias de vida.Assim fatos como falecimento dos pais, mudança de profissão do pai, infância da mãe,só foi significativa no conjunto da vida educativa e não como experiências relacionais vividas com a família., da forma como foi evocada pelos professores.O que importou nos dados biográficos da pesquisa realizada por Dominicé foi selecionar dados importantes do passado educativo que tenham contribuído na formação da vida dos professores e do significado que o professor atribuíram aos fatos.

Cabe aqui uma pergunta: Como devemos escrever na nossa biografia os relatos do passado, formação para que o material escrito tenha significado para uma pesquisa qualitativa?

No quarto subitem relata sobre a questão da “autonomização em face de família”, entendendo autonomização como a trama de um processo passível de generalização, o que difere de sujeito para sujeito. Tudo deve acontecer no processo de formação com interação com outros processos Aponta tão somente as relações familiares influenciando de maneira significativa na construção da escolha da profissão. A autonomia, para as mulheres acontece nos papéis que exercem e na resolução dos conflitos no meio familiar, categoria comprovada com uma citação.

No quinto subitem descreve os aspectos relacionais referentes à escola e a vida profissional que ora são polvilhadas de anedotas, crucificam os professores de matemática, ora de detalhes com os que ensinaram o modo de administrar o curso escolar,mostrando-se satisfeitos com aqueles que facilitaram-lhes no prosseguimento dos cursos.

Já no sexto subitem encontramos registros, análises das dimensões relacionais do processo de formação expressos nas biografias como: sujeitos familiares, escolares e profissionais. Há destaque para presença tardia na universidade, necessidade de trabalharem muito cedo, não participação de movimentos sociais ou grupos políticos.

Na conclusão Dominicé deixa claro que pesquisas que utilizam biografias, como a de formação não necessariamente precisa confirmar hipóteses, “não se trata de contar, verificar ou provar” (p.94) elas são apenas pistas de reflexão, tentativas de estabelecer protocolos, categorias representativas o que leva a maior compreensão dos dados. A formação aparece como algo sutil na construção das redes relacionais mais complexas e não se reduz apenas à ciência social A referencia recai no processo de autonomização, ou seja, a maneira como o adulto volta a trabalhar ou modifica os que os responsáveis pela sua educação (família, professores, amigos, etc.) pretenderam-lhe ensinar, e para tudo isso utiliza o conceito de identidade.

Apreciação

Por meio de uma linguagem concisa e da utilização de citações das biografias educativas Dominicé apresenta um texto fácil de compreensão, gostoso de ler, exemplificativo para todo pesquisador que está iniciando com pesquisas que utilizam biografias educativas.

Ao falar sobre a importância dos métodos biográficos alerta para a falta de uma teoria da formação dos adultos. Considero importante o conceito de reflexividade, o terreno da formação de professores, assim como considero que o estudo biográfico só tem sentido se resultar em uma reflexão e tomada de consciência.

Indico a leitura desse artigo a todos os componentes do nosso grupo de estudos como complemento dos demais artigos que compõem esse livro.

* GRAPA (Groupe de Rechercche sur les Adultes et leurs Processus d’Aprentissage) trata de um grupo de estudo fundado em 19980 por Pierre Dominicé e Marie-Christine Josso, em Genebra,com a finalidade de desenvolve trabalhos em colaboração com grupos de pesquisadores de Portugal, Canadá, Itália, França e Suíça




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